domingo, 16 de março de 2025

Oito dias no verão de Aracaju

Derretendo feito dois pedaços de queijo de coalho na chapa, corremos para dentro de um centro cultural em busca de sombra, banheiro e, talvez, algumas obras de arte de artistas locais. O local parecia um tanto desordenado, mas antes que conseguíssemos fazer perguntas, a moça sorridente se ofereceu para nos guiar numa visita. E lá fomos nós, um tanto constrangidos, atrás da simpática criatura que era ninguém menos que a recém-nomeada diretora da casa, encarregada de arrumar a bagunça e reabrir a instituição. Orgulhosa, ela nos mostrou todas as salas, detalhando o que pretendia fazer em cada uma delas. Fez isso com muita naturalidade e alegria por estar recebendo dois turistas interessados na cultura local. Saímos prometendo voltar um dia e ver tudo pronto e funcionando.

Isso aconteceu em Aracaju, onde passamos uns dias de férias e onde todo mundo é simpático. O pessoal que atende nas lojinhas, quitandas e pequenos mercados é tão gentil que a gente sempre acaba por comprar alguma coisa. Lá, a frase “na volta eu compro” não é enganação, a gente volta mesmo para comprar na loja da moça mais simpática.

Depois desse rápido passeio cultural, fomos até o Mercado Municipal. Frutas que nunca vi de perto, como o feio jenipapo e o simpático umbu, que eu pensava que já nascia dentro de saquinhos, doces, bolos e queijos, tudo bastante barato.






Mercado de artesanato

Aracaju tem uma orla muito agradável, cheia de jardins e equipamentos de lazer para a população. Com o calor infernal que estamos enfrentando nesse verão, é muito bom caminhar sentindo a brisa do mar e apreciando a paisagem num lugar decente e organizado.







As praias urbanas de Aracaju são, basicamente, a mesma praia de mar aberto, muito extensa, com faixa de areia larga e que vai mudando de nome. Praias limpas, com exceção de alguns pontos onde se instalaram barracas horrorosas cercadas por lixo e banhistas que, aparentemente, gostam de lixo. As grandes lixeiras azuis, entretanto, lá estão. Por que as pessoas não jogam seu lixo no local apropriado? Por que os donos dos botecos improvisados, que vivem desse comércio, não limpam a sujeira que provocam? Mistérios. Felizmente os pontos porcos são poucos, a gente pode caminhar por quilômetros sem encontrar lixo.








Há outro problema: nada de sombra. Não há arvores, formações rochosas nem abrigos públicos. A única fuga possível do SOL maior são os bares. Alguns são ótimos, arrumadinhos e tranquilos, sem pressão para consumir nem taxa de consumação. Muito agradáveis, se não fosse pela música. O som ambiente é até suportável, porque a indigência musical vai variando, e às vezes até escorregam e tocam algo bom. Dureza é quando começa a música ao vivo, estridente e ruim. Que horror, então eu não sei que se é o ganha-pão honesto desses trabalhadores da cultura? Sim, eu sei, nada contra a sobrevivência dos músicos. Só acho que, se eles são profissionais, poderiam aprender a tocar, cantar e escolher repertório. O público gosta de lixo? Quer ouvir coisas cuja letra é “olha a polpa da bunda” e só? Talvez, mas há muita gente que prefere música, não sons de esgoto. Eles poderiam alternar o lixo com alguma coisinha melhor, na proporção de três para um, por exemplo. E por que tão alto? O que acontece é que a gente pula fora dos bares assim que começa a tortura sonora. E aí, que fazer? Voltar pra casa. Jamais vou entender gente que tem à disposição, de graça, um dos melhores sons do mundo, que é o barulho do mar, mas prefere o horror sonoro.




Em Aracaju dá para fazer alguns passeios ótimos. Desta vez, nossa segunda na cidade, fomos para a Foz do São Francisco, Lagoa dos Tambaquis + Praia do Saco, Croa dos Gorés + Ilha dos Namorados. O passeio para a Foz é muito bonito, a gente tem o luxo de nadar no Velho Chico e ainda ver encontro do rio com o mar. Nossa embarcação era bem simples, logo de cara não gostei, mas foi tudo muito bom e tranquilo.






O encontro do São Francisco com  mar, em Piaçabuçu

A Praia do Saco ainda é bonita, mas o mar subiu muito e alterou completamente a paisagem. Na primeira vez que estivemos lá, era uma única praia, agora são vários trechinhos com barreiras de pedra por toda a parte. Em breve, essa praia deixará de existir. Para quem gosta, há passeios de buggy pela região, que dispensamos. Preferimos simplesmente apreciar a paisagem e tomar vários banhos de mar, abrigados do sol num bar sem música ao vivo (para nossa alegria).




A Lagoa dos Tambaquis é pura armadilha para turistas. A gente é levada para um parque, muito limpo e arrumadinho, cuja única atração é botar os pés na água quentíssima e ser rodeado por uns peixões pretos, os tais tambaquis. Quem quiser compra ração para alimentar os malandros. Indicado só para quem nunca viu um peixe vivo de perto. Só fomos porque fazia parte do pacote.




Para conhecer a Praia do Saco, talvez valha a pena alugar um carro, pular os tambaquis e escolher um lugar interessante para ficar. De lá, é possível pegar um barquinho para Mangue Seco e contratar um passeio de buggy para conhecer as dunas e o mar. Dispensamos também, porque já conhecemos Mangue Seco e não achamos nada de especial. Dunas, mar e coqueiros iguaizinhos aos de outros lugares onde não há necessidade de barquinhos e passeios de buggy sacolejantes.

Croa dos Gorés e Ilha dos Namorados são lugares de paisagens belíssimas e ótimos banhos no rio Vaza-Barris.


Croa dos Gorés


Croa dos Gorés

Croa dos Gorés


Croa dos Gorés

Ilha dos Namorados

Ilha dos Namorados



Ilha dos Namorados

Há muitos anos fizemos o passeio para os Cânions do São Francisco, um lugar maravilhoso. Desta vez não repetimos, por ser um pouco longe: mais de 3 horas para chegar lá. Há duas cidades históricas próximas a Aracaju, Laranjeiras e São Cristóvão, que também visitamos na primeira viagem. Vale conhecer, dá para ir com as agências de passeios ou de carro, alugado ou de aplicativo (opções mais baratas).


Visitamos o Museu da Gente Sergipana, interativo e simpático, e o Memorial de Sergipe. Ambos bem cuidados e bonitos, com monitores sempre atentos e dispostos a dar explicações. Numa sala dedicada aos jogos tradicionais, ensaiei jogar amarelinha, devidamente instruída pelo monitor.

Museu da Gente Sergipana

Museu da Gente Sergipana

O Projeto Tamar também pode ser um passeio de algum interesse para crianças ou adultos que gostam de tartarugas e peixes em aquários.



Em Aracaju, come-se bem. Há muitos restaurantes excelentes ao longo da orla da praia de Atalaia, a maior parte deles concentrada na assim chamada Passarela do Caranguejo. A comida é boa tanto nos estabelecimentos simples quanto nos mais sofisticados, mas a praga da música ao vivo está presente na maioria deles, principalmente nos finais de semana. A padaria Pand' oro, próxima à Passarela do Caranguejo, serve tapiocas, cuscuz, bolos, sucos e cafés o dia todo. Sem música, claro.